quinta-feira, outubro 28, 2010

A metáfora da vida é o ônibus da linha 333


Nasci numa época que a metáfora da vida era o trem. Ouvia-se dizer que fulano perdeu o trem da história. Outro já pegou o bonde andando. Para perceber o valor de um minuto, pergunte a uma pessoa que perdeu um trem. Pobre com bagagem perde o trem

Para mim, a metáfora é o ônibus. No 333,  que me deixa na UEPB,  observo um mundo em miniatura. É ali que vejo os jovens, recém-saídos da adolescência, descobrirem a paixão. Vão de mãos dadas até a universidade, num calor de matar qualquer um.

É no busão que vemos alguns motoristas maltratarem os idosos, como se fossem cães sarnentos. Mas é, também, onde notamos outros motoristas e cobradores demonstrarem gentilezas com gestantes e mães com crianças de colo. Percebemos que nem todos são iguais e não é o hábito que faz o monge.

Vejo ainda, quase diariamente, marmanjos fingirem sono profundo para não cederem seus lugares para idosos, pessoas com deficiências e portadores de necessidades especiais.  No entanto, observo estudantes carregarem o material daqueles que não têm espaço para sentar.

É na fila de entrada e saída do lotação que entendemos a competição da sociedade capitalista, pós-industrial, pós-tudo cantada pelos sociólogos. Na fila, esta síntese do sucesso individual, entendemos a lei do mais forte, a falta de camaradagem e o  “quando a farinha é pouca, meu pirão primeiro”.

Sem contar que no coletivo sempre tem um chato que nos grita, com seus celulares-último-modelo, intimidades que meus avós não confessariam nem na intimidade da alcova. Será que eles não entendem que não queremos saber o que fizeram ou estão em vias de concluir?

No busão, sei quais as músicas que estão no hit parade, pois sempre tem alguém disputando qual é o celular de maior potência sonora. Ligam-nos, em toda altura, sem nos perguntar o gosto musical. Não importa se as letras falam de preconceito. O importante é mostrarem os sons do momento.

Mas é no coletivo que pessoas de classes sociais diferentes se comprimem, sem terem pensamentos coletivizados. É no lotação, ainda, que se atritam estudantes de Medicina, Matemática, Psicologia, Biologia, Física, Odonto e Estatística..., garis, fiscais, carteiros, funcionários da UFCG e UEPB. Numa inter(ação)  forçosa.

Quer saber como é vida dos estudantes e da classe trabalhadora de Campina Grande,  tome o 333 desde a Catedral,  passando pelo  Hospital da FAP. Porém, deixe para descer na volta, quando ele passar pelo Monte Santo e Araxá. Observe quem são seus passageiros e descubra em que classificação você se encaixa.



quarta-feira, outubro 27, 2010

Estudante de Areial representará a Paraíba na etapa nacional do Soletrando

Da esquerda para a direita: Afonso (diretor), Ivone (mãe), Maria e sua tia.
A estudante Maria Henriques Souto, de 12 anos, foi classificada na manhã desta quarta-feira (27), para participar da etapa nacional do “Soletrando 2011”, quadro do Programa Caldeirão do Huck, da Rede Globo.

A eliminatória aconteceu no auditório do SESI de João Pessoa e contou com a participação de 26 competidores de toda a Paraíba. As seletivas do Soletrando 2011, nos outros Estados,    vão até sexta-feira (29/10).

Maria é aluna do 8º ano da Escola Estadual Francisco Apolinário da Silva, no munícipio de Areial, Terra do Crochê, a 27 km de Campina Grande. Com o resultado, a estudante carimba seu passaporte e embarcará para o Rio de Janeiro nos próximos dias.

De acordo com Afonso Henrique Patrício Alves, diretor da escola, a estudante é destaque em Língua Portuguesa. “É um orgulho para nós termos um de nossos alunos representando o estado numa competição nacional”, comemora.

O que é “Soletrando"?

É um concurso nacional de soletração (método de ensino de leitura que consiste em memorizar e pronunciar separadamente as letras) para estudantes do ensino fundamental.

O programa tem o objetivo de despertar o interesse pela língua portuguesa e aumentar o vocabulário de adolescentes entre 12 e 16 anos. O campeonato conta com a participação de 27 alunos – cada um representando um Estado brasileiro.

A cada semana, três concorrentes são  sorteados para se enfrentarem a cada programa. Alternadamente, cada um terá que soletrar corretamente a palavra escolhida pelo apresentador, Luciano Huck. O quadro conta, ainda, com a participação de "juízes", a exemplo do professor Sérgio Nogueira.

domingo, outubro 24, 2010

Censo 2010: recenseamento até por ligação interurbana


Depois da publicidade do governo em relação ao Censo 2010, não via a hora de ser recenseado. Havia um problema.  Como me tornei um nômade esses dias, vivo mais entre o ônibus e a universidade que qualquer outro lugar, ficava difícil para o(a) recenseador(a) me encontrar em casa.

Deixar recado embaixo da porta seria praticamente impossível; moro em um prédio sem porteiro. Cada um tem a chave da entrada principal. O edifício é habitado praticamente por estudantes, ninguém para em casa. O prazo do levantamento estava chegando ao fim (31 de outubro) e nada de entrar para as estatísticas. Fiquei preocupado.

Acho que sou o único brasileiro que andou atrás dos recenseadores. Toda vez que encontrava um deles perguntava o que eu tinha que fazer. Diziam que podia ser pela internet, mas eu precisava de uma senha para preencher o formulário online. Necessitava ligar para um 0800.  Deram-me o tal número.

Sempre que me lembrava de ligar para o bendito número era fora do horário. Um belo dia,  encontro um colega com o colete e o crachá que a tevê dizia que identificávamos um recenseador. Contei-lhe de minha vontade de ser recenseado. Ele anotou o número de meu telefone e disse que sua coordenadora entraria em contato.

Achei gentil de sua parte, mas não dei muito crédito. Pensei com meus botões, esse camarada está me enrolando. Ela nunca vai ligar para mim. Isso é conversa para boi dormir, promessa de ano de eleição. Quem já viu censo por telefone? Fiz muxoxo mental e continuei minha caminhada.

Sexta-feira (22/10), a caminho de Recife, em Goiana, meu telefone toca. Uma voz suave e muito educada do outro lado. Dizia que meu colega havia lhe dado meu número e queria fazer a entrevista comigo. Fiquei surpreso e prosseguimos no cadastramento. Terminada a sabatina, ela agradeceu e, da mesma forma educada que começou, despediu-se.

Os passageiros do ônibus estavam me olhando com cara de espanto. Ficaram mais ainda quando eu comuniquei para o meu colega de viagem que era uma das coordenadoras do IBGE de Campina Grande que estava me recenseando. Senti-me importante e feliz em saber que as novas tecnologias estão sendo úteis para o recenseamento dos brasileiros.  

terça-feira, outubro 12, 2010

Para uma criança, um dia especial


O Parque da Criança é um dos lugares mais interessantes de Campina Grande. É ali que mato a saudade da Paulicéia desvairada e seu encantador Ibirapuera. O parque de campina tem uma vantagem: não há poluição e o cinza triste do céu. Mas falta o lago, as esculturas e as bicicletas de aluguel, em especial aquelas de dois e três lugares.

No entanto, caminhar pela pista tortuosa de nosso parque é uma atividade de puro prazer. Como hoje era dia das crianças, resolvi visitar meu velho companheiro de caminhada e conferi o que ele oferecia aos pequeninos no seu dia. Já de longe se ouvia o barulho de uma daquelas bandas de acordes estranhos e letras duvidosas que são para adultos.

Resolvi me aproximar. O gramado e os brinquedos do playground estavam tomados por uma polifonia de cores e pessoas diferentes, famílias inteiras, bicicletas, carrinhos eletrônicos e de pedalinhos ajudados por pais atenciosos. Mães e filhos brincando e pouco espaço para caminhar.

Estava quase desistindo de me aventurar no meio daquela multidão, quando me deparo com um momento sublime. Um garoto cadeirante, empurrado por seu e acompanhado por sua mãe numa felicidade incrível, olhando o mundo que se descortinava para si.

Haviam dado uma volta na pista, mas estavam de frente ao sorveteiro, daquelas máquinas que têm dois frascos e de natural mesmo apenas o vendedor. O pai parou a cadeira do filho, deveria ter uns oito anos, mais ou menos, e foi comprar um sorvete de morango. Quando entrega a guloseima, o garoto abre um sorriso mais radiante que o sol que iluminava a cidade.

O sorvete quase rosa representava o prêmio após um passeio por entre aquelas outras crianças. Era como se o aventureiro, em sua cadeira infantil como ele, tivesse conquistado o mundo. Saboreou o doce gelado como se fosse o último. Sorri de onde estava  e parti para casa pensando que ainda há motivo para comemorar o dia da criança.

Pensava que apenas os grandes cronistas e poetas eram capazes de compreender a sutileza do sorriso de uma criança. Ao subir os degraus do parque, vi que o sol ia se escondendo com seu vermelho crepúsculo, quase que ruborizado da cumplicidade que tivemos.

Campina Grande também tem sua cracolândia


Aqui em Campina Grande, uma coisa tem me incomodado muito: jovens consumindo e sendo devorados vivos pelo crack. O cruzamento das ruas Luiz Soares com Índios Cariris é nossa cracolândia. Vemos ali, perto dos “inferninhos”, zumbis cambaleantes, com seus cachimbos autodetonadores a clarear a esquina, vagalumeando na escuridão.

Sábado (09/10), passei por lá,  às 19h,  e vi três meninas e um menino que, tenho certeza: não atingiram a maioridade. Aqueles adolescentes pareciam coquetéis molotov, acendendo seus próprios pavios. Magros, sujos e já sem alguns dentes. Passei apressado, lamentando por aqueles vodus, pois a vida e integridade eles, talvez, não soubesse o que fosse.

Esta é quarta vez que vejo cenas semelhantes. Conversei com um produtor de televisão e fiz a denúncia.  Ele disse que não podia fazer nada, “pois eu moro perto e isso pode ser ruim para mim”, estou denunciando aqui. Quem sabe alguém possa fazer alguma coisa.

Isso tudo a menos de 500m do gabinete do prefeito. As autoridades devem estar esperando tomar as proporções da cracolândia de São Paulo. Enquanto isso, nossos políticos brincam de gangorra no playground eleitoral. E as baixas são de nossos jovens suicidas.


quinta-feira, outubro 07, 2010

A internet é uma janela que se abre ao mundo



Vivemos em planeta mutante. A cada geração, transformam-se os jeitos de nos relacionarmos com os outros. Minha geração ficará marcada pelas mudanças causadas pela internet. Esta ferramenta multimídia modificou não apenas os meios de comunicação, mas, principalmente, a forma de interação social.

Este emaranhado de milhares de redes é um portal dimensional que liga os mais distantes rincões dos brasis com as megalópoles mundo afora. Raras são as localidades, mesmo povoados remotos do país, que não tenham uma lan house. Ali, os usuários conhecem as diversas faces do mundo e interagem com as novas esfinges midiáticas.

 A internet, ainda, proporcionou diferentes formas de comunicação, os comunicadores instantâneos como o MSN, o telefone via IP, o Skype, o e-mail, as redes sociais como o Orkut e twitter. Mas principalmente, aproximou pessoas. Com respeito a isso sou testemunha de defesa da rede.

Como quase todo nordestino, tenho parentes espalhados pelo Brasil e é através do MSN que mantenho contato diariamente. Hoje me aconteceu uma coisa muito legal. Estava ao computador escrevendo, quando recebo uma ligação de um dos quatro sobrinhos que sempre visito, dizendo que o técnico havia instalado internet (via rádio) em sua casa.  Ele mora em Areial, 30 km de Campina Grande.

Após as configurações básicas e adição de endereços eletrônicos no comunicador instantâneo, comecei uma conversa com minha irmã. Encurtamos 30 km, numa conversa audiovisual. De repente uma prima que mora no Rio de Janeiro fica online e travamos uma conversa compartilhada. Comprimimos mais 2.378 km.

Lembramo-nos das coisas de nossa infância, contamos coisas inusitadas e rimos bastantes, risadas gráficas. Parecia que estávamos na mesa da cozinha de minha casa, tomando aquele café cheiroso que minha mãe fazia, coado no filtro de pano e servido com tapiocas fresquinhas, fumegantes e com bastante manteiga.

Logo em seguida, é meu sobrinho (fará 13 anos amanhã) que toma o leme da embarcação virtual, conta como foi seu dia, me fala da nota que conseguiu na prova de português, “a melhor da classe”.  Mais uma vez demos risadas gráficas e nos despedimos, abraços e beijos iconográficos, mas com a sensação que de que eu o tivesse abraçado e felicitado por seu aniversário.

quarta-feira, outubro 06, 2010

Da Vigário Calixto à Praça da Bandeira

Açúde Velho - Vista sentido Vigário Calixto - Centro


Ontem à tarde fui rever os ex-colega de trabalho e os amigos que fiz no antigo emprego. Abracei uns, apertei a mão de outros e beijei outras e, depois de um cafezinho que só dona Inácia sabe fazer, me despedi e fui tomar o velho ônibus 004, martírio de minha vida quando trabalhava no Catolé.

Um amigo acena e quis saber meu rumo. Como iria para o centro, ofereceu carona até o Luíza Motta, que perdeu seu posto de shopping para aquele outro que mudou de nome. Aceitei e resolvi seguir o resto do percurso caminhando, para colocar o pensamento em ordem e voltar à  velha atividade física.

Divaguei tranquilamente até o início da Vigário Calixto, no giradouro do INSS. Quando avisto um tumulto: trânsito congestionado.  Um ônibus da linha 444 parado com o bico beijando a traseira de um Gol. Ao contrário do que eu imaginava, não vi nenhuma agressão, do motorista do ônibus nem da condutora do veículo.

Como todos passageiros já haviam tomado outro coletivo, estavam analisando o resultado das eleições do último domingo e discutindo sobre quem seria o próximo governador. Aguardavam apenas a perícia chegar e darem continuidade a suas vidas. Vez por outra, o cobrador soltava uma gracinha e os três cainham na gargalhada, imunes às buzinas dos carros guiados por motoristas estressados.

Campina é uma caixinha de veludo

Atravessei a rua.  Ouvi os gritos dos jogadores de futsal do SESC, li o nome da Gráfica Municipal e pensei: “será que alguns daqueles papeizinhos da campanha saíram daqui?”.  Cheguei às margens do Açude Velho, um dos locais preferidos de minhas caminhadas vespertinas.

Olho para uma daquelas barracas e vejo amigos bebendo e falando lorotas, ao mesmo tempo que chegava outra pessoa à mesa. Paro, sento e o garçom me serve uma gelada. Conversa vai, conversa vem, um dos cervejeiros se levanta e vai para aula. Naquele clima de fim de tarde, pôr-do-sol sem muita expressividade e música ruim, um dos enamorados à mesa ordenada que o outro tire um anel que está em sua mão direita.

Eu, que não estava ouvindo a conversa, voltei-me mais que depressa para a cena, tão assustado quanto a pessoa a quem foi dada a ordem. Sem entender nada e com uma cara de choro e angústia, tira o anel e fica sem saber o que fazer.

Quem ordenou a retirada abre a mochila e saca uma linda caixinha de veludo azul com duas alianças de ouro branco, e entrega uma delas, num pedido silencioso de casamento, mas que simbolicamente foi um grito de coragem e ousadia na tarde quente de primavera.

O olhar de susto se transformar em um tímido sorriso. Nessa hora o sol já tinha descido atrás da Decorama, tão discreto como aquele sorriso. Esperei o beijo e o estourar dos espumantes, como são extremamente discretos, não aconteceu. Apenas um abraço afetuoso selou o momento.

Olhei para uma paineira, sem folhas e carregada de frutos, logo acima de nossas cabeças, do lado da Fábrica da Caranguejo e desejei que assim como aqueles frutos que estavam formados, o relacionamento frutificasse e gerasse flores,  não apenas de uma primavera. Pedimos a conta e seguimos na direção da Praça da Bandeira.

Eu seguia pensativo e feliz pelos dois, como uma espécie de padrinho; eles pendurados um no olhar do outro esperando apenas o momento de intimidade para se beijarem apaixonadamente e brindarem à nova fase de suas vidas, cumplicidades que estão descobrindo juntos.

segunda-feira, outubro 04, 2010

Depois da campanha, lixo, muito lixo


Não bastam apenas propostas de candidatos, pousando de bons moços e salvadores da pátria, é preciso que estes mesmos senhores e senhoras tomem consciência que o povo não está interessado em santinhos de papel. Os papéis que exigimos deles são bem diferentes. Compromisso e seriedade, por exemplo.

Juntamente com as discussões de propostas e as já tradicionais rivalidades, as campanhas eleitorais trazem lixo, muito lixo. Um absurdo como ficaram as ruas do centro de Campina Grande, na carreta do último sábado ou mesmo ontem no dia de votação. Papeis vermelhos, amarelos e laranja emporcalhavam da mesma forma.

Será que os candidatos pensam que o eleitor muda de opinião na entrada da seção eleitoral, sem discutir uma proposta? Santa ingenuidade! Quem deve estar rindo à toa são os proprietários das gráficas, pois seus lucros triplicam nesse período.

Garis ficam irados ao recolherem o lixo dos demoniozinhos dos políticos. Interessante foi ver um deles, pegando uma foto de um candidato que não se elegeu, e tirar sarro de sua cara: “coitado, tem muita gente que pensava que seria deputado. Chega dá pena”!

Eleição é como minhoca: um bicho sem pé nem cabeça





Eleição é uma coisa muito engraçada. Se eu fosse um cientista político, afeito ao lado positivo, iria dizer que esse pleito foi a vitória da democracia, que o povo está aprendendo a votar, que os políticos precisam aprender a lição das urnas e que a forma personalista, clientelista e de curral eleitoral está fadada, clichês ditos nos programas matinais da tv, repetidos ao meio dia e antes da novela.

Se eu fosse um analista político pessimista iria dizer que não é nada disso: a política não mudou nada. Que os coronéis continuam a empurrar o gado humano para seus currais e marcá-los com um ferro diferenciador. Diria que a vitória de uns é representativa de interesses e que não houve mudança alguma.

Estes aportes provam que a ciência política não é exata. Os institutos de pesquisa não conseguem demarcar as margens de erros. Aproveitam-se de suas visões de mundo e pegam amostras contaminadas a invalidar seus estudos. Mas, talvez, não seja a instrumentalização o equívoco, e sim o olho do analista que não é isento de interesses.

No entanto, não podemos dizer que a eleição não é um dia de festa. Ontem, ao votar consegui, sem ser cientista político, observar que há uma dinâmica no pensamento dos eleitores, independentemente de classe social ou de nível de formação. Pude enxergar que alguns estavam dando o troco aos políticos. E não escondiam isso.

Vi uma senhora dizer que “não ia votar em nenhum desses sujeitos. Já não tenho idade para votar”, mas ia lá só para votar nulo: deixar bem claro que não gostaria de ver nenhum daqueles no poder. Falta de inteligência, podem pensar alguns. Não.  Para mim, é o renascimento da utopia. Aquela senhora, já calejada de propostas e mentiras, não queria nenhum daqueles que ali se apresentavam para representá-la, mas tinha ainda esperança que aparecesse um/a que o fizesse.

O povo tem nome de Maria, de José, Severina e sobrenome Silva, Santos, Domingos como o dia da votação. Esses sujeitos foram lá para darem o troco das tentativas de compra de votos e meterem o dedo em seus candidatos.  Se elegeram picaretas... E os pseudointelectuais, não? Vi muitos destes cultos e conscientes acenando discretamente, na tentativa louca e transviada de configurar boca de urna.

Uma coisa, pelo menos aqui na Paraíba, ficou clara. O povo, esta classe, que me incluo com muito orgulho, deu o troco a muitos “homens de família”. Disse NÃO! a discursos homofóbicos e ao fanatismo religioso. Disse que o estado não deve ter um único dono e que as mentiras têm pernas medianas, elas até caminham apressadamente, mas não chegam ao pódio.

Em outros estados, figurões que se sentiam eleitos, a exemplo de Tasso Jereissati (Ceará), Artur Virgílio (Amazonas), Marco Maciel (jurássico político pernambucano) e mesmo Heloísa Helena (nas Alagoas de Renan Calheiros) não tiveram o que esperavam. Embora eu ache a senadora da camisa branca e jeans superior em tudo a Calheiros. Fernando Collorda terra de Heloísa  ficou fora do segundo turno para ao Palácio República de Palmares, mesmo com o apoio oficial de Lula e cia.

O ano de 2010 é emblemático para as eleições no Brasil. É o ano no qual o país elegeu um palhaço de verdade: Tiririca. Não bastasse isso, ele se torna o deputado federal mais votado do país, com 1,35 milhão, e sem prometer nada.

O palhaço teve essa votação assombrosa no território mais rico e tido com mais culto do país: São Paulo. Estado que elegeu como segundo federal mais votado, só que com menos da metade dos votos (560 mil), o educador Gabriel Chalita, ex-secretário da Educação do Estado. Eta, pauliceia desvairada, criadora de modas e modelos.
A votação de Tiririca só perde para a de “Dr. Enéas” (1.573.112 eleitores), eterno presidente, do falecido assim como ele, Prona. O candidato da barba grande e careca reluzente foi o mais votado para a Câmara Federal no pleito de 2002.
O palhaço de roupas coloridas fez sua campanha em cima do deboche. Tratando a política como o escárnio com frase do tipo: "Oi gente, estou aqui para pedir seu voto porque eu quero ser deputado federal, para ajudar os mais 'necessitado', (sic) inclusive a minha família. Portanto meu número é 2222. Se vocês não votarem, eu vou morreeer!"

sexta-feira, outubro 01, 2010

Se minha janela falasse...


Há dias venho filosofando sobre uma coisa que me faz ver o mundo de outro ângulo: minha janela. Ela tem sido minha companheira nesses 14 meses no novo endereço. No antigo prédio (Edifício Prata), só via a traseira de outros prédios e a Catedral. Deixe-me explicar onde moro: Rua João Pessoa, próximo a uma loja que diz derrubar os preços das concorrentes e de uma Rádio AM, que marcou minha infância. Qual o paraibano não se lembra da voz forte e clara de Dom Luiz e seu “Bom Dia Irmão”.

Lembro-me que quando fui escolher o apartamento, e havia quatro vazios no mesmo andar, olhei da varanda para Rua João Pessoa, seus prédios e telhados cinza com musgo.  Ouvi o barulho dessa Medina sertaneja e seus mercadores. Pensei que alugando um na frente poderia armar uma rede e ler por horas.  Foi assim que conheci o mundo da literatura e filosofia. Balancei-me, até dormir com Machado de Assis, Maquiavel, Rousseau e Monteiro Lobato.

Mas quando vi a panorâmica que se descortinava para a João Suassuana e a Epitácio Pessoa, abri mão da rede e de tudo. Pronto! Tinha certeza que queria morar nos fundos. Um amigo, que foi visitar o que seria minha nova residência, me fez ver que o apartamento vizinho era melhor. No entanto, eu não abri arredei o pé daquela vista. Meu prédio fica num vale, o que aumenta meu campo de visão e o faz parecer mais alto.

Percebi que minha janela era praticamente uma moldura transmídia de interação entre redes: entre o mundo natural (serras ao fundo da cidade) e o espaço transformado (ruas, prédios e antenas).  Calma, caro leitor! Eu explico. E, talvez, até sua relação com a janela de sua casa mude. Do alto do terceiro andar de um prédio de quatro e sem elevador, minha janela é meu primeiro refrigério depois de enfrentar os sete lances de escada.

Mas é também o espaço de observação das diversas camadas sobrepostas que formam a cidade de Campina Grande. De minha janela vejo o mundo que talvez um campinense da gema nem se dê conta, pois seu olhar já está acostumado com o espaço e não se deslumbra com a panorâmica estendida da Rainha da Borborema.

De minha janela vejo as palmeiras do Cemitério do Monte Santo, que embora seja santo, espero demorar a adentra o terreno sagrado.  Espio as serras ainda semi-virgens da penetração urbana que teima em transformar a paisagem rural.  Enxergo, lá no fundo depois do monte que já não é tão santo assim, a linha da Chesf que traz energia da Bahia e espelha pelo cristalino da Borborema.

Vejo os contornos daquilo que antes era o  buraco onde morava um sapo comestível, mas, como o Famoso filme Baseado na obra de Umberto Eco, tem um rosa com nome misterioso, transformou-se em Rosa Mística, embora ainda continue sem o cheiro agradável da flor e a mística não encante tanto assim.

Vejo o ônibus inconfundível e amarelo exagerado da São José a levar os vendedores das lojas de minha rua e da Maciel Pinheiro para suas cidades, subindo a Rua 15 de novembro, cruzando os distritos de Campina, de Lagoa Seca, Montadas, passando por Areial, até chegar a Esperança, percorrendo um caminho tortuoso de estrada não pavimentada, com seus solavancos.

Pois é, caro leitor, minha janela é republicana, a danada! Mostra a 15 de novembro quase toda e sua representação anti-imperialista.  Mas ela também é meio militarista, pois se abre desde a alvorada até a hora de recolher as bandeiras do Quartel da Palmeira. Ela é religiosa. Mostra-me além da Igreja do Monte Santo, com sua torre moderna, à imponência do Convento São Francisco, com sua torre majestosa, seu relógio pontual e seu campanário vibrante. E ainda me apresenta a luminosidade do Seminário do Alto Branco.

Como ela dialoga com as comunicações, apresenta desde minha antena de internet via rádio, parafusada à parede externa, até a imensa torre de concreto armado de telefonia celular, lá no alto da Palmeira, já na divisa do bairro dos Cuités. Sem ser elitista, apresenta as inúmeras antenas de internet dos altos dos prédios, dos simples e dos da alta roda.

Da minha janela, vejo prédios novos sendo construídos numa velocidade impressionante, os velhos edifícios da região central e aquele outro abandonado e cheio de pichações da Rua João Suassuna, acima das lojas de peças para motocicleta.  Ainda vejo os espigões lá no perder-de-vista do Santo Antônio, já se confundindo com o azul do céu e o cinza da serra, formando o pano de fundo.

Atrás da serra exatamente de onde se forma a Lua Cheia. De onde ela desponta para sua odisseia pelo céu, a derramar as paixões e influenciar os lobisomens, vampiros, os cachorros uivantes e os fluidos corporais dos loucos. É de lá, de trás das serras-sem-fim do Santo Antônio, que surge o sol que fulgura minha cara quando a cortina está aberta. É de lá, ainda, que nasce a chuva e o arco-íris, que decora minha paisagem quando o cara lá de cima está de bom humor e me quer feliz.

Mas minha janela também é indiscreta, como no filme Alfred Hitchcock.  Ela me aponta, com seu olhar transparente, os churrascos que acontecem na cobertura do velho e combalido Edifício Abdallah, na esquina da Rua Padre Ibiapina (Antigo Beco do Açúcar), com João Suassuna. Dedura um casal que namora apaixonados na janela da mesma rua e ainda fica apontando estrelas, sem se preocupar se vão ou não ter verrugas. Tem dia que me mostra uma briga do mesmo casal, mostrando que a vida a dois é complexa.

Ela me mostra, com certa nostalgia, um casal de velhinhos lá no Abdallah, sentados em suas cadeiras de balanço conversando horas a fio: um assunto que parece nunca acabar. Voltam quase diariamente para um dedo de prosa, como se embaixo deles não passasse um mundo apressado: o vendedor de picolés que grita com seu diafragma de cantor de ópera ou mesmo o carro da campanha eleitoral com seu som estridente e mal educado. E os veículos quase a atropelar o transeunte que sai do Gulas’,  após saciar sua fome.

Ela mostra as luzes amarelas de uma Campina baixa, com poucos prédios tentando arranhar o céu e salpicando suas luzes de um vermelho piscante em cima das caixas d’água. Ela não consegue me mostrar a Queen (boate GLBT), mas se estiver aberta, eu posso ouvir quase nitidamente os bate-estacas eletrônicos e os Bad Romance de Lady Gaga.

Porém, e sempre há um porém,  quando ela quer que eu durma, se fecha com uma grossa cortina blackout. Para mim, apresenta uma face alaranjada; para os que a veem de longe, o cinza chumbo do bloqueador. Quando não quer que eu escute os sons estridentes e gasguitas das motos ou dos carros tunados que teimam em arranhar meus tímpanos, também se fecha e deixa que eu durma tranquilo e recupere as energias de horas e horas de queima de pestanas e aquecimento cerebral dos livros.

Isso tudo ela faz sem falar, porque se minha janela falasse... Ela contaria tantas histórias. Revelaria os segredos dos dois comércios que existem nas ruas João Pessoa e João Suassuna. Mas com ela não fala, apenas mostra as várias cidades que existem dentro de Campina, como as  camadas de uma cebola.

Vou ali, passar um limpador de vidro para continuar vendo o mundo cristalino através de minha janela.