quinta-feira, março 21, 2013

A eficiente arte de furar fila




Cotidianamente vemos pessoas furando filas. Alguns o fazem de forma ingênua, despretensiosamente; outros se tornam transgressores profissionais. Essa malandragem está virando hábito. Não há mais diferença de classe econômica, de idade ou de gênero. Quando menos se espera, vupto! Alguém toma nosso lugar e faz cara de paisagem como se nada tivesse acontecido.

Eu tenho uma lista dos três piores vícios sociais: atender telefone em locais públicos nos quais se espera silêncio (teatro, cinema, museu, escola, templos...), gritar nos mesmos lugares e furar fila. Para mim, a última é de longe o pior costume moderno, mas tem sempre um dissimulado que se acha no direito de passar a sua frente.

Antes era coisa da canalha, “sem berço”, que não sabia se comportar em sociedade. Hoje, não. É quase regra. Vemos madames furando as filas de supermercados e de boutiques, senhores espertalhões roubando vagas nos estacionamentos de shoppings e adolescentes furando a fila do cinema, com a mesma cara de paisagem.

Tente pegar coletivos que passem por faculdades ou escolas. Universitários que deveriam ter o mínimo de civilidade vivem acotovelando-se para passar na frente uns dos outros. Esses dias uma moça, magrinha coitada (!), foi arremessada em plena avenida por uma colega quando tentava subir o primeiro degrau do lotação. Eles entreolham-se como se dissessem: “farinha pouca, meu pirão primeiro”.

Semana passada fui tomar o ônibus até Remígio-PB e uma senhora (com seus 50 anos) entrou em minha frente, enfiou-me as axilas no nariz e boca, empurrou-me com suas nádegas fartas e quase fui ao chão como a universitária acima. Olhou-me aborrecida como se a culpa do imbróglio fosse minha.

Nos consultório médicos é a mesma coisa, tem sempre um espertinho querendo ser atendido primeiro. A desculpa é a mesma: “que estou muito ocupado e tenho muita coisa para fazer”. Quem na vida só tem uma consulta para fazer? Até o médico tem outras obrigações. Esses semideuses se sentem as criaturas mais importantes do mundo que não podem esperar como simples mortais.

Hoje, porém, foi a gota d’água. Em uma cerimônia religiosa, o palestrante falou do amor, do respeito ao outro e da capacidade de nos transformarmos e sermos melhores. Terminada a preleção, a dirigente disse que aqueles que quisessem fazer o sacramento permanecessem sentados, enquanto que os outros saíam em silêncio. Pronto! As pessoas começaram a passar à frente dos demais. Até nas casas religiosas a praga do fura fila já chegou! 

quarta-feira, março 13, 2013

Para que todos sejam respeitados e ninguém venerado





Todos já tivemos ataques de raiva. A revolta é algo que sentimos quando somos ou vemos outros serem maltratados ou machucados.  Perante uma ofensa, injúria, atentado físico ou moral, a revolta se transforma em puro estado de ira. Não que devemos fazer como William Foster (personagem de Michael Douglas em Um dia de fúria) e mandar bala para tudo que é lado. É preciso transformar a ira em argumentos.

Essa semana, as divindades me enviaram duas criaturas para testar minha paciência. Uma por questão religiosa; outra, por ignorância em relação à orientação sexual. O que fez aumentar minha indignação é que as boas almas usaram o Facebook para expressarem sua “verdade” da forma mais preconceituosa possível.

O opositor que expressa seu argumento em bases lógicas e legais pode até provocar nossa ira. Porém, quando o raciocínio se baseia em dogma religioso ou numa doutrina que deve ser aceita sem contestação, a revolta aumenta.  Para ele, nossos argumentos não passam de desvio da “Verdade” ou equívocos propositais.

Precisamos dizer a pessoas assim que no Brasil, teoricamente, o Estado é laico e plural étnico e culturalmente falando. Assim sendo, a vida e o comportamento social não pode ser explicado a partir de um livro sagrado. Não é uma “sagrada escritura”, seja qual for a corrente teológica, que deve orientar o comportamento dos cidadãos.

Na sua aceitação estrita e oficial, o laico é o princípio da separação entre Igreja (ou religião) e Estado. Etimologicamente, o termo vem do latim lāicus, um empréstimo da palavra grega laikos ("do povo"). A palavra é um adjetivo que significa uma atitude crítica e separadora da interferência da religião organizada na vida pública das sociedades contemporâneas.

O que rege nosso Estado é a Constituição Federal, que em seu 5º artigo diz: “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade.” Assim, deve haver liberdade para os cidadãos manifestarem a sua fé, qualquer que ela seja, sem haver controle ou imposição de uma religião específica.

Cabe àqueles que se dizem democráticos o respeito ao diferente. A tolerância é que define o grau de aceitação diante de um elemento contrário a uma regra moral, cultural, civil ou física. E tolerância para Lock é “parar de combater o que não se pode mudar”. Independe de crer que sua forma de ver o mundo é a única, pois como diz Clarice Lispector, “e se me achar esquisita, respeite também. Até eu fui obrigada a me respeitar”.

Quando compreendemos que o outro é detentor dos mesmos direitos que os nossos e assegurados pelos mesmos códigos laicos, adotamos o modelo de Albert Einstein “meu ideal político é a democracia, para que todo o homem seja respeitado como indivíduo e nenhum venerado”.



terça-feira, março 05, 2013

Viver só é perigoso quando estamos sós





Não há como fugir. Existem momentos na vida que ficamos angustiados e precisamos decidir. Enquanto a decisão não nos vem num insight, temos que descobrir aquilo que queremos. Ninguém pode escolher. Não importa o que diga o melhor amigo, seu analista, o tarólogo ou sua mãe sugira. É um deserto pessoal que precisamos atravessar. Muitas vezes, ele dura mais que os quarenta dias de Cristo.



Como Borges, acredito que a vida é "assombro contínuo, uma contínua bifurcação do labirinto". Ao seguir nossa odisseia pessoal e uma bifurcação aparece, escolhemos. Temos medo de trilhar uma das veredas do enorme (de)sertão que é viver quando estamos em crise. É a crise com tudo que ela carrega que nos põe diante do espelho e pergunta: “vai continuar com a covardia?” Tentamos dormir e nossa cama aumenta, o travesseiro encolhe. Em vez de sonho; pesadelo. Acordamos e temos medo de encarar o mundo.



Na prática é assim: dormimos com ideias e acordamos com atitudes ou deixamos a vida correr. Há dois anos estava em crise. Fui a um curso de autoconhecimento para “me descobrir” e corrigir defeitos, pois entendia que tinha muitos. Lá chegando sentamos e começaram as queixas: “Minha mulher é muito difícil”, outra cortava, “eu tenho um parente complicado”. Isso se seguiu por três semanas. O inferno eram os outros. Como reconhecia minhas culpas, na quarta semana zarpei.



Não posso dizer que não foi importante. Foi e muito. Descobri que meus problemas eu tinha que os resolver para viver melhor com os outros. Quando chegamos perto de pessoas que realmente têm problemas é que vemos que os nossos são um capricho, um egoísmo. Muitos de nós achamos que o mundo, inclusive as pessoas ao seu redor, foram criadas para nós e somente para nós.



Assim sendo, quando buscamos um amor dizemos que buscamos alguém que nos faça feliz. E nós de que forma contribuímos para a felicidade alheia? Quando fazemos esses questionamentos percebemos que os relacionamentos são vias de mão dupla. Precisamos renunciar um pouco de nossas vontades, exigir menos atenção e ser a força que o outro precisa. Isso acontece, também, com nossos parentes.



Se não temos um coração cheio de amor e limpo de mágoas, oferecemos um ombro amigo, companhia para um filme, para uma refeição, para algumas taças de vinho. Como diz Shakespeare, não podemos exigir o amor de ninguém, apenas dar boas razões para que gostem de nós e ter paciência para que a vida faça o resto.



Quando estamos seguros, os problemas são menores. Crises passam. O problema do trabalho e os erros alheios não nos irritam. Começamos a enxergar o outro com suas virtudes e o que podemos fazer juntos, ao invés de olhar os defeitos. Descobrimos que defeitos todos têm, mas as qualidades são mais importantes e ficamos felizes.



Viver só é perigoso quando estamos sós. Quando estamos seguros nos lançamos ao mar, pois navegar é preciso e os ventos só ajudam àqueles que não têm medo das tormentas. Estar acompanhado não implica ter encontrado o grande amor de sua vida, mas o amor pela vida.